O que subsiste?

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Ponderemos nas dissimulações que usamos, nas máscaras e vestes que ostentamos, nos sorrisos inautênticos que delineamos, nos punhos que cerramos quando ninguém vê. Reflictamos sobre esta mestria do disfarce que todos já empregámos, sem excepção, pelo menos uma vez na nossa existência. Debrucemo-nos sobre esta circunstância transversal à nossa caminhada mundana…

Tiremos, por fim, aquele tapete impuro e sórdido debaixo dos nossos pés gentis e descambemos redondamente no chão! Tiremos a terna maquilhagem das nossas feições hipócritas.

O que perdura? Muito pouco do que achamos ser socialmente aceite de revelar, é certo.

Agora deixemos de parte as tendenciosas concepções moralistas! O que permanece?

Uma expressão humedecida com lágrimas?

A debilidade característica de quem nunca obteve a valorização merecida ou, pelo contrário, de quem desvalorizou sem o resguardo?

O exalar sonoro de descompressão que inunda a nossa alma de vivacidade?

A descompostura pelo espelhamento da realidade, pungente e cruel?

O grito de agonia da fuga dos nossos medos aprisionados no mais inacessível subconsciente?

O QUE SUBSISTE?!!

Pippa S*

A tepidez do tempo e do espírito

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E o tempo insiste na tepidez, à semelhança das minhas deambulações platónicas. A natureza teima em espelhar a minha alma morna, fatigada com as flutuações sazonais típicas de um coração combalido. Nada a fazer!

Resta-me a agridoce cingência ao inevitável de que nem todos vivem para apreciar a naturalidade do amor. Nem todos morrem realizados com a sua plenitude sentimental. Tais variações matemáticas fazem parte da vida, pois nascemos num mundo de possibilidades infinitas.

Muitos me pintam como uma condessa vitoriana, vestida de renda e corpetes de cetim, proveniente de áureas terras, o que outrora até constituiu um axioma análogo. Todavia, esses dias pereceram, bem como a minha expressão fulgurosa de esperança que tanto pincelava afincadamente os meus olhos cor-de-cinza. Nada a fazer! A inconstância vital resume-se num autêntico paradoxo, tendo em conta a sua contínua subsistência.

Hoje desenho sorrisos em parcos, embora magníficos, momentos genuínos, apesar dos meus músculos faciais se apresentarem pouco acostumados a esse afortunado exercício. “Tento”, afirmo para mim própria, e aguardo que tal devaneio seja mais do que isso e se transmute num deleite efectivo. Afinal, se há algo que esta efémera caminhada mundana nos ensina, é que devemos avivar o espírito de forma a que este resplandeça em sítios onde a bruma adquire o seu cabalismo.

Pippa S.*