O Gelo da Indiferença

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Por vezes perco-me na contemplação das tuas feições. Estas intrigam-me profundamente pois iluminam sentimentos distintos de um instante para o outro. Tanto vejo em ti o olhar afectuoso de quem almeja algo de magnânimo, como observo uma frieza equiparável ao Nabão em dias invernosos. Na verdade, não são inusuais os momentos em que me tomo pela Santa Irene, a bela nabantina que amava quem não a desejava e que desprezava quem por ela se encantava, acabando a sua vida nas gélidas águas deste rio. Tal como ela, possuo uma tendência fatídica para amores platónicos e tragédias passionais.

 

Sei que te aborreço. Imagino-me constituindo um enfado para ti. Sou aquela pela qual sentiste algo e que celeremente derruiu todas as possibilidades entre nós pelo seu jeito de ser irreverente. Sim, eu não sou um colibri de plumagem fina que se resigna a apreciar as flores primaveris, eu sou um ser pensante e com alguma capacidade cognitiva, id est, consigo perceber que outrora me olhavas com apego. Todavia, também deduzo que os tempos mudaram, tendo em conta que o Vento Norte insiste em afastar-nos com a sua vaidade glaciar e a indiferença insípida de quem nos priva da plenitude veranil.

 

Pippa S.

 

“No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… “
– Florbela Espanca

 

A tepidez do tempo e do espírito

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E o tempo insiste na tepidez, à semelhança das minhas deambulações platónicas. A natureza teima em espelhar a minha alma morna, fatigada com as flutuações sazonais típicas de um coração combalido. Nada a fazer!

Resta-me a agridoce cingência ao inevitável de que nem todos vivem para apreciar a naturalidade do amor. Nem todos morrem realizados com a sua plenitude sentimental. Tais variações matemáticas fazem parte da vida, pois nascemos num mundo de possibilidades infinitas.

Muitos me pintam como uma condessa vitoriana, vestida de renda e corpetes de cetim, proveniente de áureas terras, o que outrora até constituiu um axioma análogo. Todavia, esses dias pereceram, bem como a minha expressão fulgurosa de esperança que tanto pincelava afincadamente os meus olhos cor-de-cinza. Nada a fazer! A inconstância vital resume-se num autêntico paradoxo, tendo em conta a sua contínua subsistência.

Hoje desenho sorrisos em parcos, embora magníficos, momentos genuínos, apesar dos meus músculos faciais se apresentarem pouco acostumados a esse afortunado exercício. “Tento”, afirmo para mim própria, e aguardo que tal devaneio seja mais do que isso e se transmute num deleite efectivo. Afinal, se há algo que esta efémera caminhada mundana nos ensina, é que devemos avivar o espírito de forma a que este resplandeça em sítios onde a bruma adquire o seu cabalismo.

Pippa S.*