Ser Mulher

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Do teu regaço faz-se luz.
Doce rebento que brota puro,
Crescendo se torna cruz,
Mas nada lhe deduzirás de obscuro.

Pois amor de mulher é cabal.
Imutável, irrestrito e imortal.
Na alquimia do afeto é ouro.
Não há muro que lhe vede este tesouro
E abale seu sentimento abissal.

Sua condição é laboriosa,
Ainda que neste século nasça,
Resiste desigualdade impiedosa,
Pouco importa o que faça.

Perpetua-se ideal obsoleto,
Patriarcal, agravo autêntico.
Ao do dito varonil, seu oposto,
Impõe-se suor sem valor idêntico.

Todavia, mulher prima pela robustez.
É ser forte, de plena audácia e sensatez.
E nada a impedirá pela vida de lutar,
Enquanto existir mundo por aperfeiçoar.

 

 

O meu terno avô

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Tal como vos havia confidenciado num anterior momento literário, oiço frequentemente quem discorra sobre a excessiva pessoalidade da minha escrita. Não obstante, penso que tal me aproxima de vós, leitores, e pretendo com sinceridade continuar a recorrer à mesma para consolidar este nosso vínculo singular.

Volto-me para o passado. O meu pungente outrora. Bem sei que não é saudável focarmo-nos em tal instância vital, contudo, careço desta viagem mental.

Visualizo o meu “Eu” de então com cerca de três anos, cabelo ondulado de tons castanho-claro-acinzentados apanhado num rabo-de-cavalo que finda em espirais perfeitas, sempre irreverente e de olhar luminoso, entretida a brincar junto do meu avô Luís com uns brinquedos multicolores quaisquer. Subsisto vagueando nas noites em que ele me induzia no mélico sono com a história dos gafanhotos que teimavam em saltitar.

De facto, de acordo com a premissa de que mãe é aquela que dá amor, tenho duas: a minha distinta amável mãe biológica e a minha sábia avó que ajudou a cuidar de mim. Conquanto, aplicando analogamente este mesmo princípio, pai tenho um: o meu avô! Foi ele que sempre lá esteve para amparar as minhas quedas e é nele que confio a minha vida. Agradeço ter um pai biológico, porém, todo o carinho paternal que obtive neste meu percurso cingiu-se sempre ao do meu avô.

Guardando as mágoas obsoletas na gaveta a que pertencem, quero apenas fixar-me no quão maravilhoso tem sido percorrer este caminho ao lado de pessoas que me apoiam e me amam incondicionalmente. Sem elas a minha vida teria sido estreitada, certamente. Um bem-haja!

Pippa S.