Carta de Amor

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Sol da minha vida,
Sinfonia tocando em adágio,
Luar refletido no rio,
Apenas em ti ensejo guarida.

 

Teus olhos ternos e penetrantes,
Sinalizando vivências penosas,
Imploram-me beijos constantes,
Encher-te de carícias afetuosas.

 

Em nenhum outro momento,
Desta forma me senti.
Querendo dar todo o meu alento
A um amor que, de tão pleno, me perdi.
Perdi-me pelo teu cabelo ao vento,
Pelo teu maneirismo atento,
Por aquilo que ainda não vivi.

 

O teu toque é seda pura.
O teu carinho uma rosa aberta.
O estender dos meus braços perdura,
Pois o meu amor em ti se acerta
E em ti se encerra, todo imbuído de frescura.
É um amor sublime e apurado,
Sempre digno e nunca um enfado.
Amor soberbo e imortal,
Como aquele de idílica literatura.

 

Amo-te meu amor eterno,
Alma gémea e esvoaçante.
A ti te amarei em duro inverno.
Em mim encontrarás devota amante.

 

O meu coração é teu para guardar.
Dou-to em sinal de confiança,
Pois nunca pararei de te amar,
Somos uma carne, infindável aliança.

Ser Mulher

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Do teu regaço faz-se luz.
Doce rebento que brota puro,
Crescendo se torna cruz,
Mas nada lhe deduzirás de obscuro.

Pois amor de mulher é cabal.
Imutável, irrestrito e imortal.
Na alquimia do afeto é ouro.
Não há muro que lhe vede este tesouro
E abale seu sentimento abissal.

Sua condição é laboriosa,
Ainda que neste século nasça,
Resiste desigualdade impiedosa,
Pouco importa o que faça.

Perpetua-se ideal obsoleto,
Patriarcal, agravo autêntico.
Ao do dito varonil, seu oposto,
Impõe-se suor sem valor idêntico.

Todavia, mulher prima pela robustez.
É ser forte, de plena audácia e sensatez.
E nada a impedirá pela vida de lutar,
Enquanto existir mundo por aperfeiçoar.

 

 

Dois corações

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Oscilações viscerais,
Dois corações tais
Que batem iguais.

Na calçada o pintassilgo dança.
Daqui a pouco chora a criança,
E aqui arcamos a temperança.

Observas-me em jeito vivaz
Com os teus olhos de amêndoa sagaz,
Reluzindo, plenos de esperança.

E batem iguais
Dois corações tais,
Oscilações viscerais,
Aguardando a bonança.

O Gelo da Indiferença

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Por vezes perco-me na contemplação das tuas feições. Estas intrigam-me profundamente pois iluminam sentimentos distintos de um instante para o outro. Tanto vejo em ti o olhar afectuoso de quem almeja algo de magnânimo, como observo uma frieza equiparável ao Nabão em dias invernosos. Na verdade, não são inusuais os momentos em que me tomo pela Santa Irene, a bela nabantina que amava quem não a desejava e que desprezava quem por ela se encantava, acabando a sua vida nas gélidas águas deste rio. Tal como ela, possuo uma tendência fatídica para amores platónicos e tragédias passionais.

 

Sei que te aborreço. Imagino-me constituindo um enfado para ti. Sou aquela pela qual sentiste algo e que celeremente derruiu todas as possibilidades entre nós pelo seu jeito de ser irreverente. Sim, eu não sou um colibri de plumagem fina que se resigna a apreciar as flores primaveris, eu sou um ser pensante e com alguma capacidade cognitiva, id est, consigo perceber que outrora me olhavas com apego. Todavia, também deduzo que os tempos mudaram, tendo em conta que o Vento Norte insiste em afastar-nos com a sua vaidade glaciar e a indiferença insípida de quem nos priva da plenitude veranil.

 

Pippa S.

 

“No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… “
– Florbela Espanca

 

Poema: Não foi intencional

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Não foi, de todo, intencional

Quedar-me nesse terno olhar.

Juro que não foi proposital !

Pois, quem haveria de cogitar

Que dois corações de cristal

Desabassem ali naquele cruzar

De contemplação impetuosa?

Afinal, quem haveria de ocasionar

Que de tamanho estilhaçar

Resultasse tal obra insidiosa?!

O que subsiste?

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Ponderemos nas dissimulações que usamos, nas máscaras e vestes que ostentamos, nos sorrisos inautênticos que delineamos, nos punhos que cerramos quando ninguém vê. Reflictamos sobre esta mestria do disfarce que todos já empregámos, sem excepção, pelo menos uma vez na nossa existência. Debrucemo-nos sobre esta circunstância transversal à nossa caminhada mundana…

Tiremos, por fim, aquele tapete impuro e sórdido debaixo dos nossos pés gentis e descambemos redondamente no chão! Tiremos a terna maquilhagem das nossas feições hipócritas.

O que perdura? Muito pouco do que achamos ser socialmente aceite de revelar, é certo.

Agora deixemos de parte as tendenciosas concepções moralistas! O que permanece?

Uma expressão humedecida com lágrimas?

A debilidade característica de quem nunca obteve a valorização merecida ou, pelo contrário, de quem desvalorizou sem o resguardo?

O exalar sonoro de descompressão que inunda a nossa alma de vivacidade?

A descompostura pelo espelhamento da realidade, pungente e cruel?

O grito de agonia da fuga dos nossos medos aprisionados no mais inacessível subconsciente?

O QUE SUBSISTE?!!

Pippa S*

O Intemerato Remédio

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“Apenas escreves sobre ti”, constatam determinadas vozes atentas. De facto, encontro-me no meu aprazível nicho quando os meus dedos decidem tomar uma alma contrastiva para aliviar aquela ferroada resultante de um qualquer impulso interior.

Este ímpeto deve-se, geralmente, a certa dor intrínseca que pousa em mim naquele particular dia. E depressa me entrego a um perscrutar incisivo de folhas de papel ou do teclado do meu computador.

Palavra a palavra, frase a frase, um fragmento da minha alma ali reside imortalizado. Constituindo um autêntico despeitorar do espírito.

Olvidem a psicanálise!  Confortem-se, antes, neste intemerato remédio!

Pippa S*