O MEDO

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Tenho sentido um bloqueio na escrita. Não consegui identificá-lo até agora. Entrementes, hoje determinei a sua verdadeira origem. Medo. Ocasionalmente cedo a um estado emocional saturado de temor. Tenho medo do amor. Tenho medo de desapontamentos. Tenho medo de estar viva sem viver inteiramente. Tenho medo do medo em si, porque me precipita para estes estados paradoxais de ter medo de algo e do seu contrário.

Revejo-me numa pessoa com uma integralidade que me assusta. Atemoriza-me pois coloca-me na situação delicada de deixar o meu coração ao cuidado de outrem. Até que ponto poderei deixar que outro ser humano se encarregue do meu órgão vital? Devo confiar cegamente? Mesmo quando a soma de todas as minhas vivências terrenas me relembre persistentemente que todas as pessoas me desiludirão, mais tarde ou mais cedo.

Acima de tudo, sei que o meu amado sente todos estes receios. Ele exterioriza-os de outra forma, com intervalos de silêncio e afastamento. Os medos de um alimentam os medos do outro e, entretanto, deambulamos aqui em círculos cerrados arriscando-nos a derruir toda a pureza dos sentimentos que nutrimos.

Apenas o tempo dirá se havia alguma razão para temer. Por ora, prefiro acalentar a esperança de que dias melhores se avizinham e que amar alguém significa envergar por um aperfeiçoamento incessante, passar de humilde seixo a diamante.

By Pippa*

O Intemerato Remédio

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“Apenas escreves sobre ti”, constatam determinadas vozes atentas. De facto, encontro-me no meu aprazível nicho quando os meus dedos decidem tomar uma alma contrastiva para aliviar aquela ferroada resultante de um qualquer impulso interior.

Este ímpeto deve-se, geralmente, a certa dor intrínseca que pousa em mim naquele particular dia. E depressa me entrego a um perscrutar incisivo de folhas de papel ou do teclado do meu computador.

Palavra a palavra, frase a frase, um fragmento da minha alma ali reside imortalizado. Constituindo um autêntico despeitorar do espírito.

Olvidem a psicanálise!  Confortem-se, antes, neste intemerato remédio!

Pippa S*

A tepidez do tempo e do espírito

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E o tempo insiste na tepidez, à semelhança das minhas deambulações platónicas. A natureza teima em espelhar a minha alma morna, fatigada com as flutuações sazonais típicas de um coração combalido. Nada a fazer!

Resta-me a agridoce cingência ao inevitável de que nem todos vivem para apreciar a naturalidade do amor. Nem todos morrem realizados com a sua plenitude sentimental. Tais variações matemáticas fazem parte da vida, pois nascemos num mundo de possibilidades infinitas.

Muitos me pintam como uma condessa vitoriana, vestida de renda e corpetes de cetim, proveniente de áureas terras, o que outrora até constituiu um axioma análogo. Todavia, esses dias pereceram, bem como a minha expressão fulgurosa de esperança que tanto pincelava afincadamente os meus olhos cor-de-cinza. Nada a fazer! A inconstância vital resume-se num autêntico paradoxo, tendo em conta a sua contínua subsistência.

Hoje desenho sorrisos em parcos, embora magníficos, momentos genuínos, apesar dos meus músculos faciais se apresentarem pouco acostumados a esse afortunado exercício. “Tento”, afirmo para mim própria, e aguardo que tal devaneio seja mais do que isso e se transmute num deleite efectivo. Afinal, se há algo que esta efémera caminhada mundana nos ensina, é que devemos avivar o espírito de forma a que este resplandeça em sítios onde a bruma adquire o seu cabalismo.

Pippa S.*