O MEDO

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Tenho sentido um bloqueio na escrita. Não consegui identificá-lo até agora. Entrementes, hoje determinei a sua verdadeira origem. Medo. Ocasionalmente cedo a um estado emocional saturado de temor. Tenho medo do amor. Tenho medo de desapontamentos. Tenho medo de estar viva sem viver inteiramente. Tenho medo do medo em si, porque me precipita para estes estados paradoxais de ter medo de algo e do seu contrário.

Revejo-me numa pessoa com uma integralidade que me assusta. Atemoriza-me pois coloca-me na situação delicada de deixar o meu coração ao cuidado de outrem. Até que ponto poderei deixar que outro ser humano se encarregue do meu órgão vital? Devo confiar cegamente? Mesmo quando a soma de todas as minhas vivências terrenas me relembre persistentemente que todas as pessoas me desiludirão, mais tarde ou mais cedo.

Acima de tudo, sei que o meu amado sente todos estes receios. Ele exterioriza-os de outra forma, com intervalos de silêncio e afastamento. Os medos de um alimentam os medos do outro e, entretanto, deambulamos aqui em círculos cerrados arriscando-nos a derruir toda a pureza dos sentimentos que nutrimos.

Apenas o tempo dirá se havia alguma razão para temer. Por ora, prefiro acalentar a esperança de que dias melhores se avizinham e que amar alguém significa envergar por um aperfeiçoamento incessante, passar de humilde seixo a diamante.

By Pippa*

O Intemerato Remédio

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“Apenas escreves sobre ti”, constatam determinadas vozes atentas. De facto, encontro-me no meu aprazível nicho quando os meus dedos decidem tomar uma alma contrastiva para aliviar aquela ferroada resultante de um qualquer impulso interior.

Este ímpeto deve-se, geralmente, a certa dor intrínseca que pousa em mim naquele particular dia. E depressa me entrego a um perscrutar incisivo de folhas de papel ou do teclado do meu computador.

Palavra a palavra, frase a frase, um fragmento da minha alma ali reside imortalizado. Constituindo um autêntico despeitorar do espírito.

Olvidem a psicanálise!  Confortem-se, antes, neste intemerato remédio!

Pippa S*

Poema: Lua de bruma

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Lua soturna,

Sol de janeiro

Que ele escarna.

Fariseu inteiro.

Conjectura melindrosa,

Impura prontidão,

De estriga escabrosa,

Que emana escuridão.

Lua críptica

Repleta de bruma,

Mítica céltica,

Que alva se esfuma.