Lobos Solitários

 

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Em petizes nos fazem crer

Que de outrem carecemos

Para lograr proveito e vencer.

Ora, tal não tem jeito!

Constitui preconceito,

Inibindo-nos de crescer.

 

A bem-aventurança jaz

Longe daqueles que cogitam

Que de outros precisam.

E nada lhes apraz

Enquanto ermos caminham.

As suas mentes enviesam,

Roubando-lhes a paz.

 

Tristes os lobos solitários,

Dizem almas inscientes.

Oh, como são capazes

De viver em derrelicção?

Dos seus estados precários

Se esquecem,

E os lobos convalescem

Na liberdade da solidão.

Leito da Amizade

 

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Bebo dos teus olhos verdes

Atentos, enchem-me o peito.

Naquelas insignes tardes,

Inda cogitas a meu respeito?

 

Torrentes de afeto e ternura

Adejam no leito da amizade.

O coração aguarda com doçura

Teu espírito são, de bondade.

 

Às vezes perco-me em ti,

Por reconhecer a tua intrepidez

Que celeremente reconheci

De outros tempos que vivi.

 

Quando te vejo,

Alentas-me a alma.

O teu abraço acalma,

Por instantes breves, o desejo.

Flor de Inverno

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Há instantes em que as maiores trivialidades nos inspiram. O universo tem formas particulares de nos exortar a abrir os nossos horizontes visuais e mentais. Dias em que se funda um novo meio de alento para tudo o que criamos a partir então. Ontem teve lugar um desses momentos.

Eu preparava-me para terminar de jantar, todavia, como em abundantes noites de feriado costumamos receber alguns familiares para nos acompanhar e era frequente que os mesmos continuassem na conversa, permaneci mais um pouco para ouvir os tão comuns comentários jocosos sobre o estado das coisas. Sempre apreciei estas ocasiões de distração entre família. O que eu não desconfiava era da importância do que se ia narrar a seguir.

Não me perguntem como se preludiou o assunto, de fato, não me recordo. No entanto, o que jamais abandonará a minha memória foram as mélicas palavras que a minha mãe proferiu sobre o meu bisavô da Ucrânia, também designado simplesmente de avô…

… O teu avô, pertencente ao exército vermelho, um dia contou-me esta estória – afirmou a minha mãe no tom calmo de quem rememora dias ulteriores. Ele falou-me de numa jornada invernal antes de conhecer a tua avó. Havia fogo cruzado e ele encontrava-se numa trincheira na Polónia. Imprevistamente, o soar das armas cessou por completo. Muitos dos soldados saíram para tentar perceber o que se impunha. Tudo aparentava calmo. O teu avô preparava-se para se levantar da trincheira, contudo, algo lhe captou a atenção por breves segundos. Ele avistou uma belíssima e imponente flor no meio da neve. Ora, sendo um evento raríssimo no inverno, tal desviou o seu olhar para a contemplação dessa preciosidade. Ele decidiu acocorar-se para poder apanhá-la e nesse mesmo instante uma bomba explode perto do local onde estava. Todos os soldados que outrora se haviam levantado tinham morrido. E ele permanecera ali, imune a tudo. Não obstante, o mais impressionante foi o fato de ele se ter apercebido pouco depois que tal flor não existia. Tinha sido tudo fruto da sua imaginação…

Fiquei sem palavras. A magnificência do universo nunca findará de me surpreender. E então compreendi. Se o meu bisavô ali tivesse perecido, eu nunca viria a existir. Eu havia sido salva por uma flor imaginária. Uma flor de esperança. Uma flor divina. Uma improvável flor de inverno.

By Pippa* (Novo Acordo Ortográfico)

O Gelo da Indiferença

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Por vezes perco-me na contemplação das tuas feições. Estas intrigam-me profundamente pois iluminam sentimentos distintos de um instante para o outro. Tanto vejo em ti o olhar afectuoso de quem almeja algo de magnânimo, como observo uma frieza equiparável ao Nabão em dias invernosos. Na verdade, não são inusuais os momentos em que me tomo pela Santa Irene, a bela nabantina que amava quem não a desejava e que desprezava quem por ela se encantava, acabando a sua vida nas gélidas águas deste rio. Tal como ela, possuo uma tendência fatídica para amores platónicos e tragédias passionais.

 

Sei que te aborreço. Imagino-me constituindo um enfado para ti. Sou aquela pela qual sentiste algo e que celeremente derruiu todas as possibilidades entre nós pelo seu jeito de ser irreverente. Sim, eu não sou um colibri de plumagem fina que se resigna a apreciar as flores primaveris, eu sou um ser pensante e com alguma capacidade cognitiva, id est, consigo perceber que outrora me olhavas com apego. Todavia, também deduzo que os tempos mudaram, tendo em conta que o Vento Norte insiste em afastar-nos com a sua vaidade glaciar e a indiferença insípida de quem nos priva da plenitude veranil.

 

Pippa S.

 

“No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… “
– Florbela Espanca

 

O meu terno avô

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Tal como vos havia confidenciado num anterior momento literário, oiço frequentemente quem discorra sobre a excessiva pessoalidade da minha escrita. Não obstante, penso que tal me aproxima de vós, leitores, e pretendo com sinceridade continuar a recorrer à mesma para consolidar este nosso vínculo singular.

Volto-me para o passado. O meu pungente outrora. Bem sei que não é saudável focarmo-nos em tal instância vital, contudo, careço desta viagem mental.

Visualizo o meu “Eu” de então com cerca de três anos, cabelo ondulado de tons castanho-claro-acinzentados apanhado num rabo-de-cavalo que finda em espirais perfeitas, sempre irreverente e de olhar luminoso, entretida a brincar junto do meu avô Luís com uns brinquedos multicolores quaisquer. Subsisto vagueando nas noites em que ele me induzia no mélico sono com a história dos gafanhotos que teimavam em saltitar.

De facto, de acordo com a premissa de que mãe é aquela que dá amor, tenho duas: a minha distinta amável mãe biológica e a minha sábia avó que ajudou a cuidar de mim. Conquanto, aplicando analogamente este mesmo princípio, pai tenho um: o meu avô! Foi ele que sempre lá esteve para amparar as minhas quedas e é nele que confio a minha vida. Agradeço ter um pai biológico, porém, todo o carinho paternal que obtive neste meu percurso cingiu-se sempre ao do meu avô.

Guardando as mágoas obsoletas na gaveta a que pertencem, quero apenas fixar-me no quão maravilhoso tem sido percorrer este caminho ao lado de pessoas que me apoiam e me amam incondicionalmente. Sem elas a minha vida teria sido estreitada, certamente. Um bem-haja!

Pippa S.