Sonhos de Liberdade

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Do teu regaço faz-se luz.
Doce rebento que brota puro,
Crescendo se torna cruz,
Mas nada lhe deduzirás de obscuro.

Pois amor de mulher é cabal.
Imutável, irrestrito e imortal.
Na alquimia do afeto é ouro.
Não há muro que lhe vede este tesouro
E abale seu sentimento abissal.

Sua condição é laboriosa,
Ainda que neste século nasça,
Resiste desigualdade impiedosa,
Pouco importa o que faça.

Perpetua-se ideal obsoleto,
Patriarcal, agravo autêntico.
Ao do dito varonil, seu oposto,
Impõe-se suor sem valor idêntico.

Todavia, mulher prima pela robustez.
É ser forte, de plena audácia e sensatez.
E nada a impedirá pela vida de lutar,
Enquanto existir mundo por aperfeiçoar.

 

 

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Oscilações viscerais,
Dois corações tais
Que batem iguais.

Na calçada o pintassilgo dança.
Daqui a pouco chora a criança,
E aqui arcamos a temperança.

Observas-me em jeito vivaz
Com os teus olhos de amêndoa sagaz,
Reluzindo, plenos de esperança.

E batem iguais
Dois corações tais,
Oscilações viscerais,
Aguardando a bonança.

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Tenho sentido um bloqueio na escrita. Não consegui identificá-lo até agora. Entrementes, hoje determinei a sua verdadeira origem. Medo. Ocasionalmente cedo a um estado emocional saturado de temor. Tenho medo do amor. Tenho medo de desapontamentos. Tenho medo de estar viva sem viver inteiramente. Tenho medo do medo em si, porque me precipita para estes estados paradoxais de ter medo de algo e do seu contrário.

Revejo-me numa pessoa com uma integralidade que me assusta. Atemoriza-me pois coloca-me na situação delicada de deixar o meu coração ao cuidado de outrem. Até que ponto poderei deixar que outro ser humano se encarregue do meu órgão vital? Devo confiar cegamente? Mesmo quando a soma de todas as minhas vivências terrenas me relembre persistentemente que todas as pessoas me desiludirão, mais tarde ou mais cedo.

Acima de tudo, sei que o meu amado sente todos estes receios. Ele exterioriza-os de outra forma, com intervalos de silêncio e afastamento. Os medos de um alimentam os medos do outro e, entretanto, deambulamos aqui em círculos cerrados arriscando-nos a derruir toda a pureza dos sentimentos que nutrimos.

Apenas o tempo dirá se havia alguma razão para temer. Por ora, prefiro acalentar a esperança de que dias melhores se avizinham e que amar alguém significa envergar por um aperfeiçoamento incessante, passar de humilde seixo a diamante.

By Pippa*

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Há instantes em que as maiores trivialidades nos inspiram. O universo tem formas particulares de nos exortar a abrir os nossos horizontes visuais e mentais. Dias em que se funda um novo meio de alento para tudo o que criamos a partir então. Ontem teve lugar um desses momentos.

Eu preparava-me para terminar de jantar, todavia, como em abundantes noites de feriado costumamos receber alguns familiares para nos acompanhar e era frequente que os mesmos continuassem na conversa, permaneci mais um pouco para ouvir os tão comuns comentários jocosos sobre o estado das coisas. Sempre apreciei estas ocasiões de distração entre família. O que eu não desconfiava era da importância do que se ia narrar a seguir.

Não me perguntem como se preludiou o assunto, de fato, não me recordo. No entanto, o que jamais abandonará a minha memória foram as mélicas palavras que a minha mãe proferiu sobre o meu bisavô da Ucrânia, também designado simplesmente de avô…

… O teu avô, pertencente ao exército vermelho, um dia contou-me esta estória – afirmou a minha mãe no tom calmo de quem rememora dias ulteriores. Ele falou-me de numa jornada invernal antes de conhecer a tua avó. Havia fogo cruzado e ele encontrava-se numa trincheira na Polónia. Imprevistamente, o soar das armas cessou por completo. Muitos dos soldados saíram para tentar perceber o que se impunha. Tudo aparentava calmo. O teu avô preparava-se para se levantar da trincheira, contudo, algo lhe captou a atenção por breves segundos. Ele avistou uma belíssima e imponente flor no meio da neve. Ora, sendo um evento raríssimo no inverno, tal desviou o seu olhar para a contemplação dessa preciosidade. Ele decidiu acocorar-se para poder apanhá-la e nesse mesmo instante uma bomba explode perto do local onde estava. Todos os soldados que outrora se haviam levantado tinham morrido. E ele permanecera ali, imune a tudo. Não obstante, o mais impressionante foi o fato de ele se ter apercebido pouco depois que tal flor não existia. Tinha sido tudo fruto da sua imaginação…

Fiquei sem palavras. A magnificência do universo nunca findará de me surpreender. E então compreendi. Se o meu bisavô ali tivesse perecido, eu nunca viria a existir. Eu havia sido salva por uma flor imaginária. Uma flor de esperança. Uma flor divina. Uma improvável flor de inverno.

By Pippa* (Novo Acordo Ortográfico)
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Por vezes perco-me na contemplação das tuas feições. Estas intrigam-me profundamente pois iluminam sentimentos distintos de um instante para o outro. Tanto vejo em ti o olhar afectuoso de quem almeja algo de magnânimo, como observo uma frieza equiparável ao Nabão em dias invernosos. Na verdade, não são inusuais os momentos em que me tomo pela Santa Irene, a bela nabantina que amava quem não a desejava e que desprezava quem por ela se encantava, acabando a sua vida nas gélidas águas deste rio. Tal como ela, possuo uma tendência fatídica para amores platónicos e tragédias passionais.

 

Sei que te aborreço. Imagino-me constituindo um enfado para ti. Sou aquela pela qual sentiste algo e que celeremente derruiu todas as possibilidades entre nós pelo seu jeito de ser irreverente. Sim, eu não sou um colibri de plumagem fina que se resigna a apreciar as flores primaveris, eu sou um ser pensante e com alguma capacidade cognitiva, id est, consigo perceber que outrora me olhavas com apego. Todavia, também deduzo que os tempos mudaram, tendo em conta que o Vento Norte insiste em afastar-nos com a sua vaidade glaciar e a indiferença insípida de quem nos priva da plenitude veranil.

 

Pippa S.

 

“No gelo da indiferença ocultam-se as paixões
Como no gelo frio do cume da montanha
Se oculta a lava quente do seio dos vulcões… “
– Florbela Espanca

 

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Tal como vos havia confidenciado num anterior momento literário, oiço frequentemente quem discorra sobre a excessiva pessoalidade da minha escrita. Não obstante, penso que tal me aproxima de vós, leitores, e pretendo com sinceridade continuar a recorrer à mesma para consolidar este nosso vínculo singular.

Volto-me para o passado. O meu pungente outrora. Bem sei que não é saudável focarmo-nos em tal instância vital, contudo, careço desta viagem mental.

Visualizo o meu “Eu” de então com cerca de três anos, cabelo ondulado de tons castanho-claro-acinzentados apanhado num rabo-de-cavalo que finda em espirais perfeitas, sempre irreverente e de olhar luminoso, entretida a brincar junto do meu avô Luís com uns brinquedos multicolores quaisquer. Subsisto vagueando nas noites em que ele me induzia no mélico sono com a história dos gafanhotos que teimavam em saltitar.

De facto, de acordo com a premissa de que mãe é aquela que dá amor, tenho duas: a minha distinta amável mãe biológica e a minha sábia avó que ajudou a cuidar de mim. Conquanto, aplicando analogamente este mesmo princípio, pai tenho um: o meu avô! Foi ele que sempre lá esteve para amparar as minhas quedas e é nele que confio a minha vida. Agradeço ter um pai biológico que adoro e que se esforça para me continuar a sustentar monetariamente, porém, todo o carinho paternal que obtive neste meu percurso cingiu-se sempre ao do meu avô.

Guardando as mágoas obsoletas na gaveta a que pertencem, quero apenas fixar-me no quão maravilhoso tem sido percorrer este caminho ao lado de pessoas que me apoiam e me amam incondicionalmente. Sem elas a minha vida teria sido estreitada, certamente. Um bem-haja!

Pippa S.

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Não foi, de todo, intencional

Quedar-me nesse terno olhar.

Juro que não foi proposital !

Pois, quem haveria de cogitar

Que dois corações de cristal

Desabassem ali naquele cruzar

De contemplação impetuosa?

Afinal, quem haveria de ocasionar

Que de tamanho estilhaçar

Resultasse tal obra insidiosa?!

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Ponderemos nas dissimulações que usamos, nas máscaras e vestes que ostentamos, nos sorrisos inautênticos que delineamos, nos punhos que cerramos quando ninguém vê. Reflictamos sobre esta mestria do disfarce que todos já empregámos, sem excepção, pelo menos uma vez na nossa existência. Debrucemo-nos sobre esta circunstância transversal à nossa caminhada mundana…

Tiremos, por fim, aquele tapete impuro e sórdido debaixo dos nossos pés gentis e descambemos redondamente no chão! Tiremos a terna maquilhagem das nossas feições hipócritas.

O que perdura? Muito pouco do que achamos ser socialmente aceite de revelar, é certo.

Agora deixemos de parte as tendenciosas concepções moralistas! O que permanece?

Uma expressão humedecida com lágrimas?

A debilidade característica de quem nunca obteve a valorização merecida ou, pelo contrário, de quem desvalorizou sem o resguardo?

O exalar sonoro de descompressão que inunda a nossa alma de vivacidade?

A descompostura pelo espelhamento da realidade, pungente e cruel?

O grito de agonia da fuga dos nossos medos aprisionados no mais inacessível subconsciente?

O QUE SUBSISTE?!!

Pippa S*

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“Apenas escreves sobre ti”, constatam determinadas vozes atentas. De facto, encontro-me no meu aprazível nicho quando os meus dedos decidem tomar uma alma contrastiva para aliviar aquela ferroada resultante de um qualquer impulso interior.

Este ímpeto deve-se, geralmente, a certa dor intrínseca que pousa em mim naquele particular dia. E depressa me entrego a um perscrutar incisivo de folhas de papel ou do teclado do meu computador.

Palavra a palavra, frase a frase, um fragmento da minha alma ali reside imortalizado. Constituindo um autêntico despeitorar do espírito.

Olvidem a psicanálise!  Confortem-se, antes, neste intemerato remédio!

Pippa S*

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